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Contos espíritas


Os túmulos


Numa tarde calma, os pássaros cantavam felizes as alegrias da primavera. O vento soprava gélido, mas o sol acalentava a grama verde com seu calor ameno. Os túmulos esquentavam ao calor do astro no cemitério. O silêncio mórbido não era quebrado por nenhum ser humano. Os túmulos estavam solitários naquela terça-feira, somente os pássaros cantavam seu canto de paz entre as árvores frondosas.
            Três espíritos malfazejos estavam debaixo de uma araucária. Eles observavam um túmulo, onde ao lado estava deitada uma mocinha. Riam-se de escárnio e tentavam decidir como iriam se divertir com ela. Já estavam saciados da farra do dia anterior e os outros membros de sua gangue ainda não tinham voltado de seus deleites, por isso ainda permaneciam quietos, só observando.
            A menina abriu seus olhos grandes e verdes como esmeraldas e logo os arregalou. Assustada olhava para todos os lados tentando entender onde estava. Viu primeiro o céu, em seguida a grande árvore e quando se deu conta que ao seu lado havia um túmulo se arrastou para trás muito rápido com um medo imenso. Os espíritos de ironia riam, um deles apontava para ela e falava aos outros ironicamente que havia uma morta com medo dos mortos.
            Logo, observando o monte de lápides, ela se deu conta de que estava num cemitério. Um dos espíritos gritou:
            – Está morta, menina! Está morta! Há! Há! Há! Há! Há!
            Ela se virou rapidamente para ele e viu as criaturas mais imundas que já vira na vida. Eram três homens barbudos, feios e mal-vestidos. Eles a olhavam com interesses nada nobres e ela mais uma vez teve medo.
            – Veja só, ela acha que está viva!
            – É melhor fugir daqui, se ficar, quando chegarem nossos companheiros iremos te vampirizar sem perdão. Há! Há! Há! Há! Há!
            – É verdade, aproveite que estamos sendo bonzinhos hoje. Não costumamos avisar nossas vítimas. Apesar de que olhar esse seu olhar de medo é bem divertido...
            As vozes carregadas de ironia ressoavam no cemitério vazio. A voz da moça engasgava na garganta. Ela não conseguia dizer nada, o pavor tomava conta de seu espírito todo.
            – O, Zé! Ela ainda não tá acreditando. Esses novatos são tão previsíveis, nunca acreditam na própria morte. – e falando isso começou a gesticular como se imitasse as atitudes dos novatos – Eu não! Como posso estar morto, me sinto tão vivo. Não, isso não aconteceu comigo. – E fazia cara de apavorado e colocava as mãos na cabeça fingindo arrancar os cabelos que não tinha. – E a minha família? Porque não vem me ajudar? E Deus? Ele não existe, então? – Nessa hora, ele fingia que estava chorando e se ajoelhou no chão segurando nas calças do outro.
            Enquanto isso, os outros dois de pé morriam(mais uma vez) de rir. Riam ainda mais quando olhavam para os ainda mais arregalados olhos verdes. Ela ainda continuava atordoada, sentada ao lado do túmulo como se assistisse a uma estranha peça de teatro e não como se fizesse realmente parte daquela cena. A tontura na cabeça, cheia de dúvidas, fazia com que tudo parecesse um filme de mau gosto para ela.
            – O, Mário! Olha só! – E falando isso, Zé foi se aproximando da menina, começou a mostrar-se com uma cara de furioso, encrespou as mãos para frente, fazia caretas estranhas e olhares sombrios. – Sua alma é nossa! Se ficar aqui ela vai pertencer a nós para sempre! Tu vai ser nossa escrava! Todas as suas energias serão nossas! Sugaremos até a última gota da sua energia vital... Há! Há! Há!
            E a mocinha deu um salto e logo que levantou pôs-se a correr desesperada. Zé ficou na pose que estava e disse:
            – Xi!! Escapou!
            E riram-se os três como se tivessem ouvido a melhor piada do mundo. Riam gostosamente da menina assustada, da situação dela, da própria miséria deles, daquele mundo inerte e sem sentido. Riam do Deus que não conheciam e do mundo que lhes dava poderes para serem cruéis com quem quisessem.
            Os cabelos negros davam saltos pelos ombros, tanto pela velocidade com que ela corria, como também por causa do vento que estava aumentando. A menina mal via os túmulos dos quais desviava para correr, mil pensamentos seguiam em seu espírito...
            Eu não posso estar morta! Aqueles arruaceiros estão me enganando! Mas quem fez comigo essa brincadeira de mau gosto? Isso não se faz com ninguém. Largar uma pessoa dormindo do lado de um túmulo num cemitério qualquer... Quanta crueldade! Meu Deus! O que será de mim? Eu não estou morta, não posso estar! Eu sinto minhas pernas doloridas de tanto correr. Eu sinto meu peito arfando e a falta de ar depois dessa corrida. Eu me sinto zonza, mas estou pensando. Mortos não pensam! Mortos são somente um amontoado de ossos e carne apodrecida sendo comida por vermes horrorosos, eu não sou isso. Sou um ser que pensa, que age, que sente. Não posso estar morta. Não posso!
            Vou fazer uma tentativa, vou parar e tentar falar... Mortos não falam. O que significa que se eu ainda puder falar não serei nenhum zumbi ou moribundo e muito menos uma morta-viva.
            E no momento seguinte ela balbuciava e tentava falar gaguejando um pouco:
            – E... Eu... me ...me...ch...chamo...Sama...Samanta. N...Não podem...me... enga...nar.
            E sentiu-se exultante após ter pronunciado com dificuldade essas duas frases. Ficou feliz, era um sucesso afinal. Ela podia falar. Deu um sorriso bobo e pensou que estava certa, estava viva, bem viva. Entretanto, ouviu a voz dos três vilões com quem havia travado o breve diálogo lá atrás perto da araucária e estremeceu. Os três a estavam perseguindo agora e parecia que havia mais vozes com eles. As vozes ficavam mais altas a cada segundo e ela virou-se rápida para trás, somente a tempo de presenciar aquela grupe demoníaca aproximando-se a uma velocidade incrível, flutuando no ar.
            O cemitério virou um palco de um espetáculo grotesco. No ar uma série de espíritos negros como sombras dançavam e faziam caretas num círculo infernal. O círculo subia e descia em volta de Samanta. Ela olhava transfigurada para aquelas criaturas, achando que tudo aquilo era um pesadelo imenso e que logo acordaria em sua cama quentinha, na casinha simples ao lado da mãe e da irmã. Contudo, os miasmas e energias negativas que eles soltavam não paravam de interferir nos pensamentos dela, ela queria rezar para que acordasse logo, mas não tinha forças. Os espíritos malévolos soltavam grunhidos como se fossem animais selvagens e estava pintado o quadro do apocalipse, parecia ser o fim para a alma daquela menina, suas energias seriam sugadas sem piedade. Eles brincavam com ela como o tigre ou o gato brinca com a presa morbidamente antes de assassiná-la.
            No instante seguinte, um dos coveiros do cemitério vinha subindo em direção aquela orgia de espíritos, bem quando um destes já descia até a garota e começava a sugar dela uma fumaça esbranquiçada que se desprendia de sua alma com uma rapidez imensa. Os outros, como verdadeiros vampiros em busca da presa, esperavam ansiosos sua vez de saltar sobre ela. Os três amigos que a viram primeiro combinaram de ir ter com ela os três de uma vez. Foi nessa hora que o coveiro que tinha o poder de ver os fantasmas começou a assistir aquele espetáculo de longe. Logo que se deu conta do que ocorria, correu em direção aos cabelos negros que tapavam quase todo o rosto, cada vez mais pálido, da mocinha que desfalecia. E chegando perto gritou:
            – Saiam, cambada de inúteis! Deixem-na em paz! Deus castiga! Vocês serão castigados! Não por mim, não por ela, mas vocês serão castigados!
            E dizendo isso balançava as mãos no ar, como se espantasse insetos gigantes. Uma senhora que assistiu a cena de longe, pois estava visitando o túmulo do marido, achou que o coveiro estava louco. Afinal, para ela, ele era somente um homem sozinho em meio a um monte de lápides gritando e agitando os braços no ar. Ela, como a maioria das pessoas, não conseguia ver o que realmente acontecia. Poucos podem saber a verdade e muito poucos acreditam sem ver.
            O coveiro rezou fortemente, uma reza que tinha aprendido com um padre para exorcizar demônios. Isso foi logo que ele começou aquele serviço. Ele era jovem e medroso. Acreditou que precisava de alguma arma para se defender dos fantasmas dos mortos e havia aprendido algumas naqueles anos de lida.
 Os espíritos, a princípio, se riram dele, mas momentos depois, começaram a chegar alguns mensageiros espirituais, eram espíritos vestidos de branco que se pareciam com médicos e automaticamente fizeram aquela turma se acalmar. Como eram poucos os chegados, estavam ali somente para conter os mais turbulentos. O coveiro sabia que só precisava esperar mais alguns minutos e chegariam reforços para conter todos. Todavia, a menina estava alheia a esse processo e assim que se viu um pouco mais livre do ataque direto dos agressores saiu correndo sem olhar para trás. O coveiro bem que quis ir atrás dela, mas além de ela ser muito rápida, ele estava cansado demais do esforço de chamar os amigos espirituais e conter aquele bando de energias negativas que ficaram no ar. Ele pensava que já era hora de estar acostumado com tudo aquilo, afinal, aqueles arruaceiros sempre voltavam. E não eram só eles, o cemitério estava sempre cheio de espíritos vagabundos e vampirizadores, ele sempre voltava com dor de cabeça para casa. Pensou ainda em qual seria a sorte da menina, mas não dependia dele. Precisava descansar, que Deus a ajudasse.
            Não agüento mais correr. Estou toda suja, me sinto mole, minhas pernas parecem não querer me sustentar mais. Meus cabelos estão uma droga. Mas eu ainda tenho classe, mesmo desgrenhada desse jeito. E eu não acordo nunca! Será que isso não é mesmo um pesadelo? Será que o que eu vi eram mesmo espíritos tentando me matar? Se não fosse aquele homem diferente, mas eu é que não sou louca de voltar lá para perguntar o que está acontecendo. Vou tentar voltar para casa, mas nem sei em que parte da cidade estou. Será que é longe de casa? Pior que estou sem dinheiro para pegar um ônibus. E se eu pedisse para alguém na rua? Às vezes, tem gente boa andando por aí. Talvez se eu contasse essa história me ajudariam. Não. Duvido! Ninguém acreditaria numa história dessas! Eu não acreditaria se me contassem! Se bem que eu nunca dei esmolas a ninguém, como posso esperar que agora alguém vá se importar comigo... Será que é isso? Isso tudo que eu estou passando... será que é algum castigo de Deus? Ah, mas eu não sou tão ruim assim para merecer isso. Tá certo que eu maltrato a Lânia, mas é que ela é tão apática, tão chatinha, fica lá costurando com a mãe e fica com toda a atenção dela. Não é justo também. E depois como é que eu não ia me revoltar de viver essa vidinha medíocre no meio da favela. Eu sonho mais alto que elas, quero ser rica, famosa e ter todos os meus desejos realizados. O céu foi muito injusto comigo, eu já sou fina por natureza, tinha que ter nascido em berço de ouro. Daí, eles iriam ver quem é Samanta a mais refinada das mulheres. Sim, é verdade, eu seria a melhor rainha que o mundo já viu se ainda vivêssemos na era dos reis aqui no Brasil...
            De repente, ela que tinha se distraído com seus pensamentos não viu uma lápide grande do túmulo de uma família rica e como continuava correndo desavisada, acabou passando por dentro da lápide e saindo do outro lado. Ela estancou. O coração teria pulado até a boca se ela estivesse viva para isso. Ela virou-se para trás chocada e enfim, percebeu que havia atravessado uma grossa lápide de cimento. Nela se lia algumas palavras sobre o jazido da família Reiffas. Ela percebeu, naquele instante fatal, que estava morta. Deixou-se cambalear e cair ao lado do novo túmulo.
            Alguns minutos mais tarde, ela andava sem destino pelas ruas movimentadas. Já havia percebido que ninguém a via, a não ser que fosse outro espírito. E de todos os espíritos que a viam ela corria apavorada, como se todos fossem querer lhe fazer mal. O trauma era grande em sua mente.
            Lembrava agora aos poucos da cena do acidente, a possa de sangue que se formara a seu lado, seus sentidos que se esvaiam aos poucos e dum negro túnel que tinha uma luz brilhante no final. Lembrava também que depois de algum tempo não sentira mais nada. Será que não a levaram para um hospital? Não lembrava. Bem, se ela tinha morrido, devia ter havido um enterro, mas como é que ela não se lembrava de nada? E como é que o espírito dela ainda estava podendo andar pelas ruas? Não havia um céu, então? E quem eram aqueles homens de branco? E isso queria dizer que ela nunca mais teria a chance de ser rica e famosa?! Os pensamentos iam silenciando à medida que o desespero ia tomando conta dela.
            Agachou-se e chorou. A ajuda viria, quando ela realmente se arrependesse das coisas que andava fazendo quando viva e resolvesse rezar para amigos espirituais. Ela parecia ainda ter muito a sofrer, a julgar pela atitude rancorosa e o orgulho ferido que ela nem tentava conter. Contudo, isso ainda é outra história, a ser contada em hora mais oportuna.


Andréia Cristina Saffier