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Contos Divertidos



Argonautas e Caleidoscópios

Algumas palavras sempre despertaram a minha curiosidade, seja porque tinham um som esquisito, seja porque pareciam carregar uma aura de mistério no seu significado. Duas palavras me pareciam muito interessantes na minha infância: “argonauta” e “caleidoscópio”. Eu não tinha a menor idéia do que elas realmente significavam, mas minha mente fantasiava mil coisas e eu acabava acreditando nos significados que atribuí a cada uma delas. Quem seriam os argonautas, eu me perguntava. Só pode ter a ver com astronautas, é claro. Devem ser astronautas com habilidades especiais, astronautas que são capazes de visitar outras galáxias em poucos segundos usando naves que viajam na velocidade da luz. Por certo, eles devem ter milhares de acessórios nos seus trajes espaciais. Cada acessório é capaz de fazer coisas incríveis. Um é capaz de abrir portas gigantescas no meio de palácios de extraterrestres, outro de entrar no sistema de qualquer computador por mais avançado que seja e descobrir seu funcionamento; outro ainda é portador de uma arma desintegradora, dessas que vemos nos desenhos animados. E também é possível que exista um que seja capaz de desintegrar um ser vivo em um lugar e reintegrá-lo no outro. Assim os temíveis argonautas teriam o poder de fazer aparecer e desaparecer objetos e seres vivos em qualquer parte do universo.  Isso tudo sem falar das importantes armas de lançar gelo, fogo, bombas, tranqüilizantes, paralisadores, venenos, etc. Afinal, o argonauta deve estar preparado para enfrentar qualquer coisa. Ele usa um equipamento especial para proteção, com direito a traje que fica invisível quando necessário, roupa de temperatura regulável e camuflagem perfeita, pois é capaz de ficar exatamente da mesma forma que o ambiente a sua volta.  Entretanto, é verdade, que não é qualquer um que pode ser tornar um argonauta. Devem existir testes muito rígidos para aqueles que querem se tornar um destes astronautas especiais. O candidato não só deve ser muito inteligente, ter conhecimentos muito grandes de história mundial e geografia planetária, como também deve ser um gênio da matemática, da física e da química. Ah, e não podemos esquecer que como pré-requisito essencial, ele deve ser um artista. Pois, todos sabem que sem criatividade extrema ninguém manusearia com maestria uma roupa e uma série de acessórios tão impressionantes quanto os do argonauta. É preciso que ele também seja um excelente lingüista e conheça o maior número de línguas que seja possível, pois deverá se comunicar com todos os tipos de pessoas e seres. Seus talentos como orador e comunicador serão exigidos ao máximo, porque na sua importante tarefa de levar os conhecimentos humanos aos confins do universo deverá usar de todas as possibilidades para estabelecer uma comunicação intensa com outras formas de vida. Não devo esquecer de mencionar que carregará acoplado em sua roupa um computador ideal, com um banco de dados vastíssimo que ajudará na disseminação da cultura humana e na resolução de quaisquer possíveis problemas com raças menos simpáticas a nossa causa. Treinamentos com artes marciais são desejáveis, já que equilíbrio, reflexos rápidos, elasticidade e rápida decisão serão exigidos dos representantes da Terra em muitas situações pelo espaço a fora. Assim, os argonautas seriam seres dotados de tantas capacidades e habilidades que impressionariam qualquer ser humano normal.
E o caleidoscópio, onde entra nessa história? Alguém perguntaria... Bem, o caleidoscópio é o tipo de telescópio que os argonautas usam. Um telescópio capaz de ver por entre milhares de galáxias, a uma distância absurda, feito especialmente pra quem vai viajar milhares de quilômetros por segundo e precisa saber o que vai estar no caminho há umas três ou quatro galáxias de distância, para, dessa forma, não atropelar ninguém.
É aí que toda a minha criatividade paralisa. Quando num dia fatídico há alguns anos atrás, alguém enfim me explicou o que era um caleidoscópio. Nem sequer era algo mágico, de onde saísse truques exuberantes e fumaças coloridas... Digo isso, porque sempre ouvia que o caleidoscópio era algo que mostrava coisas lindas. O comentários dos meus pais eram sempre dizendo que era algo muito legal que não tinha como explicar, só vendo mesmo pra entender. E no fim era simplesmente “um cilindro opaco ao longo do qual estão dispostos vários espelhos, de maneira que pequenos objetos coloridos colocados no tubo produzem ali desenhos variados e simétricos”(definição do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa). Isso realmente me fez murchar. Contudo, quando tive um caleidoscópio de verdade em minhas mãos, me deixei encantar por ele e o girei freneticamente para encontrar desenhos de outros mundos na sua rotatória. Ainda assim, minha conclusão sobre essa palavra era que ela não tinha nada a ver com aquilo que ela denominava. Não combinava e pronto.
Com a palavra “argonauta” foi a mesma coisa, outra decepção, talvez até maior. Pelo menos argonauta era um viajante, como eu pensara, mas era um tal tripulante lendário da nau mitológica Argo. Que nau era essa? Eu nunca soube mitologia direito, isso não me dizia nada. Descobrir isso só me serviu para uma coisa, fazer com que os argonautas perdessem sua magia. Afinal, que sem graça é o tripulante de uma nau ao lado de um astronauta desbravador. Entretanto, seguindo a leitura do dicionário me deparei com: “Argonauta: navegador ousado”. Bom, já estava bem mais perto do que eu pensara. Provavelmente, eram denominados assim, antigamente, aqueles navegadores que se aventuravam nos oceanos bravios para descobrir novas terras sem temer encontrar o desconhecido. Como nos dias de hoje, todas as terras do nosso planeta já foram conquistadas, nada mais natural do que vir a chamar de argonautas aqueles que se aventurarem por universos nunca dantes navegados.



Andréia Cristina Saffier